domingo, 15 de dezembro de 2013

Conto - Recomendado para Leitores MAIORES DE 18 ANOS


A VARA DA MACIEIRA


Trata-se de Representação do MP.  Numa bancada, acomodam-se Adão e cinco companheiros. Noutra, Eva e cinco aliadas. Aguardam o magistrado. Respeitam o ambiente, mas os olhares lânguidos mostram-se zombeteiros, como se a desavença não lhes dissesse respeito. 
Desconhecem por que o MP havia se metido naquele assunto. Tudo indica que quer mostrar serviço. Até a imprensa estava no tribunal!
O magistrado chega, acompanhado de risonho assessor, cumprimenta-os com paternal sorriso e ordena:
Pode falar, Adão. Por que brigaram?
Eva e essas aí fizeram uma calda de maçã, chamaram-na de paixão e jogaram a gororoba quente em cima de nós, Senhor. 
E vocês não reagiram?
Como, Senhor? Presos pela chave de pernas, imobilizados pelo mata-leão, sufocados pelos descomunais apertos? Só nos restava gemer.
Mentira, senhor. Eles se imobilizaram, adormeceram e não conseguiram levantar. Gemiam, sim, mas no ronco, de desgosto. Penalizadas, apanhamos uma vara de macieira e ficamos passando de uma pra outra, cutucando eles. Daí, levantaram e tentaram nos matar de arrocho. Comemos o pão que o diabo amassou. Chegamos até a revirar os olhos, acredita, Senhor? Desculpe por ter metido o Coisa Ruim na resposta, Senhor. 
Está desculpada, Eva. Você é danada de autêntica. Agora me diga: o pão estava realmente amassado? Outra coisa. A vara que vocês usaram foi esta?, perguntou o juiz, mostrando uma vara em forma de tê. Não um tesinho qualquer. Mas um tê enorme de grandão e grandão de enorme.
Foi, senhor. Foi essa bendita mesmo. Bom, pra ser sincera, o pão não estava amassado não, mas que era dormido, velho, ah, isso era. Senão não estaria tão duro, Senhor.
Fui eu quem deixou o pão naquele estado, Eva, esclareceu o magistrado, desaprovando a gargalhada do risonho auxiliar. 
Muito bem, só me compete agora seguir a orientação do MP e pedir que Pedro queime a vara, disse o juiz, com discreto piscar de olhos para o ajudante.
Não! Por favor, Senhor!
Por favor, não, Senhor!
Sorrindo, o meritíssimo comentou:
Ouçam, D. Eva e Seu Adão. Esse arrocho que vocês levaram pertence ao livre-arbítrio. Utilizem as regras, fujam da hipocrisia, busquem a harmonia e o pratiquem sem parcimônia. Precisam da macieira, seja em forma de haste, seja em forma de folha, a fim de que a estabilidade cósmica permaneça, meus filhos. Porém, como se trata de livre-arbítrio, estará certo quem dela se abstiver. 
Pedro, arquive a Representação do Ministério do Pudor e o mande tratar de reais e despudorados comportamentos. Há muitos por aí.
Está encerrada a audiência. Peço aos litigantes que se cumprimentem. 
Quê?! Levantem-se!
Mandei-os tão somente se cumprimentarem, pessoal.

Dezembro/13
TC




Um conto de Tião Carneiro

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