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domingo, 5 de janeiro de 2014

Conto - O Mendigo no Espelho


     Era mais uma daquelas noites para se esquecer em São Paulo. Chuva pesada no fim da tarde, milhares de pessoas presas em seus carros, regiões inteiras debaixo d'água e trânsito dando nó. Melhor nem acessar internet, só veria tragédias, desabamentos e imagens de helicópteros mostrando a paradoxal decadência de uma metrópole em constante evolução.

     Experiente, já fiz hora extra no escritório. "Deixe o povo se matar no horário de pico e vá depois, em paz". Mas não foi bem assim.

     Anos e anos de trânsito e eu sabia como cortar caminhos por dentro de alguns bairros. E foi num desses, em uma rua tranquila, que passei por uma poça e meu carro bateu em algo. Barulho estranho, mas eu prossegui, devia ser uma pedra ou algo assim. Mas alguns metros à frente, pouco antes de um cruzamento, senti o carro estranho. O pior da chuva havia passado, mas naquele momento a chuva não estava fraca. Tive de parar para ver. Pneu furado, calota quase destruída, o que eu tinha feito?

     Não havia outra alternativa. Com raiva, peguei a chave e comecei a trocar o pneu. No entanto, eu fazia muita força, até com os pés, e não estava conseguindo retirar uns parafusos. De repente, percebi uma sombra se aproximando. Fiquei assustado e quando percebi, era um homem em panos rasgados e mal-encarado, um mendigo. Na hora pensei que iria me roubar, por reflexo. Mas em um segundo de lucidez, pensei que ele não teria nada a roubar de importante, nem sairia de lá com o carro também. Ele chegou mais perto e me perguntou se precisava de ajuda. Eu estranhei, mas logo pensei que teria de pagar a ele. Ele repetiu: "O senhor precisa de ajuda? Estava vendo da calçada, não está conseguindo, eu acho que consigo". Fiquei sem graça, mas recusei, mas ele insistiu e intercedeu, quase tomando a chave de minha mão. "Eu ajudo o senhor". Eu respondi que não podia pagar. Ele sorriu e virou-se: não precisa, só quero ajudar.

     O pobre homem era habilidoso, rapidamente começou a girar a chave e a retirar uns parafusos. Ele cheirava tão mal que eu me incomodei. Tentava disfarçar, dava dois passos para lá, olhava de novo. Só que ele percebeu e tentou não ligar, ou demonstrar que não se importava.

     Quando ele terminou, eu agradeci bastante, mas hesitei em apertar-lhe a mão imunda. Ele fingiu não se incomodar de novo, e começou a conversar:

_ O senhor pensou que eu fosse um ladrão, não é?
_ Não... ladrão não trabalha debaixo de chuva forte - respondi.

     Depois eu pude perceber que resposta estúpida eu dera. Lamentável. Tentei consertar:

_ E o senhor, vive aqui?
_ Não, eu sobrevivo aqui. Durmo debaixo daquela marquise - apontou-me para o lado oposto da rua.
_ Mas tem família? Digo... desculpe perguntar.
_ Não, não tem problema, seu... seu...
_ Márcio, por favor, Márcio.
_ Eu, Adilson.
_ Obrigado, Adilson. Não sei o que faria aqui, estaria dando murros no carro até agora.
_ Não foi nada, seu Márcio.
   O meu celular tocou. Só atendi porque era minha mãe, preocupada se eu chegaria em casa bem. Logo respondi que estava bem, só trocando pneu, mas num lugar seguro. Assim que desliguei, o mendigo Adilson continuou:
_ Mãe, o que é nosso
_ Mãe!!! Que falta da minha. A velha é danada demais.

 Fiquei constrangido, mas mesmo assim continuei perguntando sobre e vida do rapaz:

_ Mas, então... por que... é... por que vive aqui? O que aconteceu com você?
_ Vim da Paraíba... tentar a vida. Não consegui nada fixo, e terminei na rua.
_ Não tem ninguém aqui?
_ Não, senhor.
_ Tentou voltar pra sua terra? - estranhei um homem lúcido aceitar aquela situação deplorável.
_ Não, de jeito nenhum!
_ Mas por quê? - perguntei, espantado.
_ Tenho vergonha! Vergonha de minha família. Minha mãe, sabe, ela é analfabeta, mas mais esperta que nós dois juntos. Eu não tenho coragem de voltar mentindo, ela vai saber que sou fracassado quando olhar na minha cara... Não, voltar, não volto. Fracassado, nunca!

     Fiquei extremamente incomodado com aquela fala. Dolorida, cheia de mágoa e sofrimento. Hesitei por uns segundos, mas prossegui a conversa:

_ Eu não tenho como te ajudar agora, mas amanhã faço questão. Virei aqui, trarei roupas e sapato. Faço questão de retribuir o que fez por mim de algum modo. Por favor, não se ofenda.
_ Não, não me ofendo, não. Mas por favor... se for trazer algo, prefiro que traga ração - ele disse calmamente.
_ Ração?
_ É, ração.
_ Mas como assim, para quê? - estranhei o pedido.
_ É que alimento a cachorrada da rua. Eu me viro melhor que eles. Os cães não sabem pedir.

     Um nó apertou minha garganta na mesma hora. Aquele mendigo, fedido e mal tratado, largado e esquecido nas ruas, mas que pensava primeiro no desgosto da mãe e na fome dos cachorros. E gente bem sucedida como eu a pensar que se alguém está assim é porque fez por onde, porque não sabe conviver com as pessoas e se entrega às drogas e à bebida.

    Num impulso, eu me despedi com um abraço bem forte, e aquilo me fez renascer de algum modo. Prometi voltar no dia seguinte, entrei no carro e dei a partida. Vi um aceno pelo retrovisor e retribui. Sem exagerar no drama, por alguns momentos percebi que o grande infeliz da história era eu. Com tudo na mão e nada a oferecer a ninguém. Nada que seja realmente importante para a vida de alguém. Bem estar, qualidade de vida e paz de espírito comprada!

Um conto de Wagner Andrade.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Conto - O Uivo


Com cautela ele adentrou a mata, desejava afastar-se do cotidiano e dos arranha-céus da grande metrópole. Sentir-se natural, em meio ao verdejante frescor da floresta. Levava consigo um equipamento de primeiro mundo, a barraca mais moderna, comida enlatada e liofilizada, repelentes, inseticidas, raquetes mata-moscas, lanternas que mais pareciam holofotes, colchão inflável, GPS, vídeo-games portáteis, mp3, celular por satélite, praticamente trouxe a cidade consigo.

Achou uma clareira, esterilizou o ambiente e montou seu acampamento. À noite as luzes lembravam um estádio de futebol, e Marcos timidamente esquentava em sua panela uma deliciosa refeição pré-fabricada.
“- Um pouco de água e voilà, está pronto!”
Irrompia o silêncio da noite com suas músicas num volume altíssimo em seu aparelho de mp3.
Empanturrou-se com purê de batatas, estrogonofe de frango, acompanhado de uma grande e gorda garrafa de refrigerante, de sobremesa chocolates e dúzias de outras guloseimas, limpou a boca suja na camisa, afinal ninguém estava ali para lhe ver. Jogou os papeis e embalagens por todo o acampamento, depois ligou seu vídeo game e por algum tempo divertiu-se com seu pequeno brinquedo eletrônico.
Então apagou as luzes, desligou o som e entrou em sua barraca para dormir. E ouviu ruídos dos mais assustadores, ruídos da selva. Tremia debaixo das cobertas jurando que jamais colocaria os pés lá novamente se sobrevivesse a aquela noite. Escutava animais passarem perto da barraca, outros sobrevoarem, sons de galhos sacudindo e quebrando. Queria sair de lá para ver o que estava acontecendo, descobrir o que emitia os horríveis e tenebrosos sons, mas o medo lhe impedia de mexer qualquer músculo.
E num súbito movimento algo rasgou a parte de trás de sua barraca, Marcos rapidamente abriu o zíper que mantinha a porta fechada e correu noite adentro na mata. O caminho era escuro, e a lua crescente iluminava muito pouco para seus olhos acostumados com os postes da cidade. Ao chegar a certo ponto notou sons semelhantes a batidas de tambor, diminuiu o ritmo, a cada passo o som parecia mais alto. E ele estava lá, sozinho na floresta, com frio e medo, perdido e ouvindo ruídos estranhos. Sentou no chão e desesperadamente começou a chorar.
Viu vultos luminosos transpassarem as árvores e os tambores chegarem a seu apogeu sonoro. E parados em seu redor estavam nove índios. Um deles, ancião, coberto por uma pele de urso dirigiu-lhe a palavra:
“- Homem da cidade chora por que teme a natureza. Homem da cidade cria prédio, cria rua, só não cria entendimento de que o homem da cidade é filho de homem da mata. E que terra é mãe igual de bicho e de gente.”

Nesse momento os tambores voltam com seu som rítmico, Marcos, no chão, praticamente paralisado observa uma dança circular realizada pelos espíritos indígenas em seu redor.
E o índio volta a falar:
“– Mas hoje, homem da cidade vai ver.”

Ditas essas palavras um show de luzes feito aurora boreal começa, elas rodopiam no ar dançando com os índios, e nelas desde pinturas rupestres a animais são vistos.
O índio ancião, com uma espécie de cuia nas mãos, dirige a palavra novamente a Marcos.
“- Este é o sagrado chá de Peyote, antigo ritual faremos.”

Ele entrega o chá a Marcos, que o toma. Começa a sentir-se tonto, as luzes deixam rastros no ar até que tudo vira apenas um clarão branco. E ele se vê em outro lugar. Uma espécie de tempo construído em pedra, e os índios estão lá, com ele, sentados.
Marcos vê ao longe duas grandes asas que rapidamente se aproximam, e em sua frente pousa um grande e velho lobo alado. O índio da pele de urso se pronuncia:
“- Este é seu guardião, homem da cidade, de hoje em diante será conhecido como ‘O Lobo Alado’.”

O lobo aproxima-se de Marcos e o cobre com suas asas.
E ambos tornam-se um só.
E ele se lembra do que todos os homens da cidade já esqueceram.
E todo aquele lugar como que por mágica desaparece. Marcos encontra-se deitado no chão, e abre os olhos com o raiar do sol. Volta para seu acampamento, posteriormente para sua cidade.
Conta para amigos e familiares o acontecido, mas todos julgam tratar-se de uma fantasia.
Meses se passam e ninguém mais tem notícias dele, Ana, sua velha amiga vai até sua casa.
Marcos havia deixado a chave debaixo do tapete, ela entra e se depara com um poema escrito na parede:

“Pela janela de uma madrugada qualquer eu vislumbro a Lua
-UIVO-
Por fora sou um homem
Por dentro um lobo-alado

Revelado a mim ao som rítmico de tambores e peyote de xamãs sem nomes e corpos
Num transe transcendental onde suas asas cobriram meu corpo nu
E a real sabedoria oriunda da dor, mostrou-se, em pelo e osso
No olhar velho e cansado de um lobo já caduco
Que uiva insone insanamente
E se alimenta de carcaças já em decomposição de sonhos esquecidos e corações infartados

O lobo ancião cava o chão fazendo sua própria sepultura
E ao menor deslize engole o Sol e a Lua
E vomita melancolia…

- Marcos A. Bessen, o Lobo Alado.“




Alguns dizem que Marcos, o Lobo Alado ficou louco e suicidou-se, outros que foi para o leste procurar seu verdadeiro clã sob os olhos protetores de Wabun.


Um conto de Jedias Hertz


domingo, 22 de dezembro de 2013

Conto - Um Encontro Incomum



I

Assim que entramos no hotel, fiquei surpreso com o contraste que o exterior, antiquado, fazia com o interior futurístico.
Aquele planeta realmente era um mundo bastante contraditório. Desde que pousáramos ali, algumas horas antes, não cansava de me abismar com as diferenças que as ruas apresentavam; mendigos e carros de luxo, trafegando nas mesmas vias, uns quase passando sobre os outros, como se fosse a coisa mais comum. Monumentos riquíssimos e favelas lado a lado, luxo e miséria no mesmo endereço.
O hangar, em que havíamos deixado o cruzador-estelar ficava a poucos minutos do hotel e fomos a pé até ele, depois de desembaraçarmos nossas malas da alfândega planetária; mas foi o suficiente para constatarmos aquela dura realidade.
Enquanto pensava em tudo isso, minha parceira encaminhou-se até a recepção, para tratar de toda a burocracia referente a nosso registro. Eu, como novato, recém chegado da Terra, não conhecia tão bem tudo aquilo quanto Arina, que já estava acostumada com aquelas viagens estelares. Fiquei observando o local, entretido com a quantidade de seres exóticos que circulavam por ali. Minha atenção, porém foi aguçada por uma jovem de pele azulada, que sentada a uma mesa, no luxuoso bar, olhava-me insistentemente com seus grandes olhos verdes.
Era uma garota charmosa; cabelos negros encaracolados; contrastavam com o azul claro de sua pele, seus lábios estavam recobertos por um batom bordô, que acentuava a boca carnuda. Ela ergueu-se e aproximou-se lentamente, enquanto observava-lhe as formas exuberantes, seios fartos, uma cintura fina e quadris estreitos que o vestido de um vermelho cintilante realçava ainda mais. Ela passou por mim, mantendo seus olhos verdes sobre minha pessoa, enquanto fechava os lábios num ensaio de beijo.
Assim, olhando para trás, ela sumiu por entre as pessoas do corredor.
Sem que eu pudesse evitar, fiquei a fitá-la até sumir, enquanto minha parceira, Arina, aproximava-se com a placa-chave do quarto em suas mãos.
— Tudo bem, Airam? — indagou ela, assim que chegou-se a mim.
— Tudo. Tudo! — observei-a, seus cabelos loiros encaracolados, adornavam-lhe a face rosada, enfeitada por aqueles olhos cor de esmeralda, que pareciam faiscar devido ao brilho do por do sol que entrava pelas amplas janelas, que enfeitavam o saguão do hotel.
— Vamos, consegui dois quartos. — ela pegou sua mala, que eu segurava, enquanto o “carregador”, uma criatura humanoide, mas com traços genéticos de algum tipo de roedor, talvez um coelho, apanhava o resto da bagagem que trazíamos.
Seguimos a estranha criatura até o elevador, envidraçado e, enquanto subíamos, pude avistar lá no saguão a jovem de pele azulada, que tanto me impressionara, e que acompanhava nossa subida atentamente.

Horas mais tarde, a noite já havia caído sobre aquele hemisfério de Ganabion, e o céu estrelado ostentava duas formosas luas, cuja luz clareava a cidade e o deserto árido mais ao norte.
Da janela de meu quarto eu observava a tudo aquilo, enquanto, elegantemente vestido, aguardava por minha parceira, para subirmos ao restaurante-terraço que ficava no último andar do luxuoso hotel.
Aquelas férias realmente tinham vindo a calhar, depois da dura missão que enfrentáramos, dias atrás; precisava daquele descanso. Eu, um terráqueo não acostumado com toda aquela loucura estelar, sentia-me como num conto de fadas, principalmente por ter conhecido Arina, ela era uma garota especial e, ter enfrentado todos aqueles riscos e perigos, ao lado dela, tinha criado laços entre nós, laços que precisávamos definir melhor.
O “anunciador” tocou forte, indicando que minha parceira chegara. Aproximei-me da porta e com um simples digitar de botões, fiz a mesma abrir-se.
Arina estava linda, um vestido de cor verde musgo, bem justo, porém longo, adornava-lhe o corpo bem torneado e insinuante. Ela passou por mim, revelando um generoso decote que saía de seus ombros até a cintura, deixando-lhe as costas praticamente nuas, e deu um giro rápido, exibindo sua roupa de gala.
— Que tal estou? — indagou, com um sorriso, na boca vermelha de batom.
— Linda. — disse, ainda um pouco admirado devido a tanta formosura — Está pronta? Podemos ir?
— Claro. — ela ofereceu-me seu braço, que enlacei gentilmente.
Subimos até o restaurante, muitíssimo bem decorado, onde pessoas, de vários planetas e gêneros, jantavam elegantemente. Adentramos o salão, e imediatamente o maitre aproximou-se oferecendo-nos uma mesa. Solicitamos que o local fosse no terraço aberto, onde o frescor da noite tornava-o agradável, um lugar raro naquele planeta quente.
Tomamos lugar numa mesa redonda, bonita e muito bem enfeitada. Arina sentou-se primeiro, enquanto eu arrumava-lhe a cadeira educadamente.
— Está gostando? — indagou ela, tão logo sentei-me à sua frente.
— Muito, o lugar é lindo! — completei, olhando ao redor.
— Desde que a guerra intergaláctica entre a galáxia de Taurius e a nossa, de Âmbion, teve início, este lugar tem sido meu refúgio. — segredou ela — Sempre que tenho uma oportunidade, venho para cá para ter alguns momentos de paz.
— Você já combateu muito?
— Sim, o suficiente para estar cansada de ver tantas mortes. — seus olhos entristeceram-se e baixou-os em direção à mesa.
— Desculpe, não queria entristecê-la.
— Tudo bem Airam. Essa é uma conversa que procuro evitar quando estou de folga. E você, como se sente tão distante de seu mundo?
— Às vezes confuso. Desde que você foi me buscar, aquela noite, lá na Terra, dizendo que havia sido escolhido para representar meu mundo nessa força intergaláctica especial, eu tenho vivido um sonho, como se meus dias e noites fossem uma montanha russa que não sei nunca como começa e quando vai terminar.
— Te entendo! — ela olhou-me, seus olhos verdes pareciam faiscar — Eu também me sinto assim às vezes. E olha que, pra mim, toda essa tecnologia não é novidade.
Arina voltou seu olhar para o terraço, enquanto um vento fresco fazia seus cabelos esvoaçarem de forma maravilhosa. Olhei-a, realmente ela era uma garota divina, nunca imaginara que, algum dia, estaria metido numa espécie de confusão intergaláctica e ainda tão bem acompanhado. Estar ali era algo fantástico e, apesar de tudo o que havíamos passado juntos, ainda não tinha certeza do que ela sentia por mim. Hora ou outra parecia se interessar além do normal por minha pessoa e outras parecia ser tão fria, tão profissional...
Enquanto estava perdido em minhas divagações, não percebi que a jovem que encontrara na recepção do hotel mais cedo, havia entrado no recinto e sentara-se numa mesa próxima a nossa, de uma posição que podia observar-nos com facilidade. Ela retocou o batom, olhando-se numa espécie de espelho, só que formado por luzes azuladas, que refletiam-lhe a face delicada, saindo de um pequeno aparelho prateado.
O jantar foi servido, conforme as orientações que Arina passara ao garçom. Eram pratos exóticos, diferentes dos que estava acostumado, e Arina orientava-me de como me servir daquela comida alienígena, porém de sabor agradável. Para acompanhar, um drink de cor azulada e sabor efervescente havia sido servido.
Enquanto jantávamos, nossa observadora apenas tomava um drink, após ter sido indagada pelo garçom sobre o que gostaria de pedir. Ela observava-nos insistentemente e, após minutos assim, pediu um papel ao garçom e escreveu rapidamente um bilhete, que pediu que me fosse entregue.
Em silêncio, o garçom, um ser meio lesma, semelhante aos scargôs, aproximou-se, passando-me o bilhete em frente à Arina.
— Da senhorita. — disse ele, entregando-me o papel.
Olhei em direção a ela, que ergueu sua taça em sinal de brinde.
— Arranjou uma admiradora. — retrucou Arina, olhando-a também.
— Parece que sim. — olhei para o papel, não entendia nada daquela grafia alienígena e olhei para Arina, entregando-lhe o bilhete — Importa-se?
— Claro que não. — disse ela, apanhando o pequeno papel — Pena que o tradutor não sirva também para escrita. — brincou.
— Verdade. — balbuciei, enquanto olhava para nossa observadora e passava a mão no pequeno medalhão, que em volta do meu pescoço, servia de tradutor-universal para sons.
— Bom, aqui diz: “Gostaria de conhecê-lo melhor. Você corre perigo! Espero-o após as 34 horas no saguão do hotel.”. Que tal? Ela não nega a origem!
— O que disse?
— Ela é uma Tiruana. As mulheres tiruanas são assim, audaciosas e oferecidas. Estão acostumadas a conquistar os homens, que não resistem a suas qualidades.
— Como assim? Que qualidades?
— Se estou certa, vai descobrir, muito em breve. — retrucou ela com uma ponta de ciúme na voz.
— Espere um pouco... não acha que eu?
— Airam, não te culpo de estar curioso. Afinal ela é bonita, atraente e alieniginamente excitante.
— Certo, mas por enquanto, vamos esquecê-la. Fingir que não está aqui.
— É difícil. — Arina olhou para a jovem tiruana, que mesmo assim insistia em fitar-nos — Ela é insistente.
O jantar terminou e assim que a conta havia sido paga, deixamos o local, enquanto nossa observadora sorria de forma maliciosa.


II

Horas mais tarde, após ter deixado Arina em seu quarto, estava observando a vista, da ampla janela de meu quarto, quando o anunciador sou forte e estridente. Imaginei quem seria, pois não esperava ninguém; aproximei-me da porta, após apanhar meu roupão, pois já estava de pijama. 
Acionei um botão, logo abaixo de um pequeno monitor e a imagem externa apresentou-se, era a jovem tiruana.
— O que deseja? — indaguei, enquanto pensava o quanto ela era insistente. Se queria ter algo com Arina, devia evitar maiores problemas e aquela garota era problema.
— Apenas falar. Pode abrir, eu não mordo. — disse ela, através do comunicador.
Abri a porta e ela imediatamente insinuou-se para dentro.
— Feche a porta, não é seguro! — disse, acionando a trava da porta.
— Tudo bem, mas explique-me uma coisa: o que quer e quem é afinal?
— Eu sou Merina. Sou de Tiruan. — ela adentrou a ante-sala, observando a tudo com ar curioso — É um prazer conhecê-lo, terráqueo.
— Espere; como sabe que sou terráqueo? — indaguei, surpreso.
— Pelo seu cheiro. — ela sentou-se na cama e arrumou os cabelos, revelando orelhas pontiagudas — Os humanos da Terra tem um cheiro deliciosamente inconfundível.
— E o que era toda aquela história de perigo e tudo mais?
— Realmente, você corre perigo... Mas... O perigo sou eu! — ela sorriu e piscou maliciosamente.
— Imagino. — concordei, virando-me em direção à janela. 
— Não, não imagina. — ela ergueu-se e aproximou-se, passando a mão em meus ombros — Não tem algo para tomarmos?
— Bem que Arina disse que vocês eram, como direi... Arrojadas!
— Então sua amiguinha falou isso de mim? Um comentário comum para uma antariana. Ela sabe que nossa raça é muito mais “interessante” que a dela!
— Opinião interessante.
— Afinal, — disse ela, afastando-se de mim em direção ao mini-bar que havia na ante-sala e preparando dois drinks — como é seu nome terráqueo?
- Airam Turini. — disse, enquanto caminhava em sua direção — E você, Merina, o que quer comigo?
— O que uma mulher pode querer com um homem? Sabia que nós tiruanas somos muito, como direi?... Fogosas?
— Creio que a palavra mais correta seria “atiradas”, mas...
— Pois brindemos a isso. — disse ela, sorrindo.
Apanhei o copo que ela servira e tocamo-os num brinde, com um tilintar.
Mas, antes que pudéssemos tomar um único gole sequer, a porta foi aberta, violada por dois enormes brutamontes, dois seres meio répteis, de pele escamosa e grossa, numa tonalidade marrom-acinzentada, com enormes mandíbulas e pequeninas orelhas em forma triangular. Eles avançaram sobre nós, mas seu alvo principal parecia ser Merina, ela esquivou-se com uma habilidade que me abismou, enquanto o segundo invasor chocava-se contra mim, arremessando-me ao chão.
Meio tonto, consegui empurrá-lo com os dois pés, enquanto tentava alcançar o cinturão com minha pistola-energética, que ficara pendurada sobre o encosto da cadeira, próxima à cama. Enquanto isso, o segundo já tinha Merina em suas mãos, enquanto rugia algo para meu adversário, que segurava meu pé, embora tentasse esticar-me ao máximo para alcançar a cadeira.
— Deixe-o! — gritou com uma voz gutural — Temos a garota!
— Não. — retrucou meu agressor — Ele é testemunha!
Porém, antes que conseguissem sair, Arina surgiu na porta, empunhando sua pistola-energética.
— Quietos! — gritou ela para os dois invasores, que surpresos ficaram estáticos.
Eu, conseguindo me desvencilhar de meu agressor, apanhei meu coldre, sacando minha pistola e apontando para ele.
— Ainda bem que chegou. — agradeci, erguendo-me do chão.
— Eu escutei o barulho e achei que a festa estava boa! — retrucou ela.
— Mande este idiota me soltar. — pediu Merina, tentando desvencilhar-se das fortes garras de seu captor.
— Faça o que ela manda! — ordenei.
O ser meio lagarto soltou Merina, e aproximou-se de seu amigo, enquanto Merina aproximava-se de mim.
— Obrigado, terráqueo. — agradeceu ela, e abrindo a pequena bolsa que trazia, sacou uma pequena arma que apontou em minha direção — Vá com eles e você também antariana... e solte essa arma!
Arina, surpresa, aproximou-se dos dois seres, enquanto Merina mantinha-me sobre sua mira.
— Vocês dois, lagartóides, para o banheiro! — ordenou ela, enquanto os dois obedeciam, resmungando algo em seu idioma gutural — Tranque a porta terráqueo!
Fiz o que ela mandou, depois eu e Arina aproximamo-nos mais da entrada do quarto.
— Agora, você, antariana, quero que abra o intercomunicador e retire uma pequena sacolinha prateada que está dentro dele!
Arina fez o que ela mandava, enquanto eu era mantido sobre sua mira. Assim que conseguiu, entregou a pequena sacola para Merina, colocando-a sobre a mesa, de onde ela conseguiu apanhá-la.
— Obrigada! — agradeceu Merina — Sinto muito, terráqueo! Realmente é uma pena não termos podido aproveitar melhor esta noite, mas fica para outra vez!
— Só me diga uma coisa. — pedi, enquanto eu e Arina permanecíamos imóveis — Por que eu?
— Ora, terráqueo... Primeiro pela curiosidade, a oportunidade de ter um terráqueo. Nunca dormi com nenhum! E segundo que, percebi o porte de sua amiga e até o seu mesmo... Combatentes-estelares, os melhores da Galáxia. Os únicos que conseguiriam lidar com esses dois lagartóides. Eles estavam nos meus calcanhares desde que roubei esta jóia de seu chefe, duas noites atrás. Foi fácil entrar aqui e esconder a jóia. — ela retirou um brilhante colar de dentro da sacolinha — Agora presos aqui, me garantirão o tempo suficiente para escapar deste planeta no transporte da madrugada!
— Bastante original. — retruquei.
— Não muito, mas eficaz! Agora os dois tenham uma boa noite! — ela aproximou-se da porta e, após abri-la, disparou contra o mecanismo de comando — Creio que pela manhã alguém virá abrir a porta, serviço de quarto como sabem.
— Eu não te falei. — retrucou Arina.
— Devia ter escutado sua amiga, terráqueo, ou a mim mesma. Não te falei que eu era o seu perigo! Tenham uma boa noite! — antes que a porta se fechasse, ela efetuou mais um disparo, que atingiu o intercomunicador, fazendo suas peças voarem aos pedaços e despediu-se com um aceno e um rápido beijo jogado.
A porta fechou, enquanto eu e Arina, sentávamo-nos na cama, lado a lado.
— É, creio que nossa noite não terminou bem como esperávamos. — retruquei, olhando-a.
— Tem razão, mas dos males o menor! — ninguém se machucou. Arina olhou para a porta, trancada, do banheiro — O que faremos com esses dois?
— Amanhã, quando abrirem o quarto, chamaremos a segurança, eles que cuidem dos dois, já fizemos nossa parte nessa palhaçada!
— Certo. E nós? — indagou ela com um sorriso — O que faremos?
— Dormir. Ou tem algo melhor em mente? — indaguei, olhando-a nos olhos verdes.
— Quem sabe? Temos a noite toda para tirarmos algumas dúvidas. Por que não começamos logo?
Nossas bocas foram aproximando-se, lentamente, e tocaram-se num molhado beijo, enquanto nossos corpos tombavam lado a lado na macia cama. As luzes apagaram-se a um simples comando vocal e a luminosidade vinda de fora cobria-nos com um leve brilho especial. Afinal de contas... Aquele encontro incomum, não fora de todo ruim!


FIM








domingo, 15 de dezembro de 2013

Conto - Recomendado para Leitores MAIORES DE 18 ANOS


A VARA DA MACIEIRA


Trata-se de Representação do MP.  Numa bancada, acomodam-se Adão e cinco companheiros. Noutra, Eva e cinco aliadas. Aguardam o magistrado. Respeitam o ambiente, mas os olhares lânguidos mostram-se zombeteiros, como se a desavença não lhes dissesse respeito. 
Desconhecem por que o MP havia se metido naquele assunto. Tudo indica que quer mostrar serviço. Até a imprensa estava no tribunal!
O magistrado chega, acompanhado de risonho assessor, cumprimenta-os com paternal sorriso e ordena:
Pode falar, Adão. Por que brigaram?
Eva e essas aí fizeram uma calda de maçã, chamaram-na de paixão e jogaram a gororoba quente em cima de nós, Senhor. 
E vocês não reagiram?
Como, Senhor? Presos pela chave de pernas, imobilizados pelo mata-leão, sufocados pelos descomunais apertos? Só nos restava gemer.
Mentira, senhor. Eles se imobilizaram, adormeceram e não conseguiram levantar. Gemiam, sim, mas no ronco, de desgosto. Penalizadas, apanhamos uma vara de macieira e ficamos passando de uma pra outra, cutucando eles. Daí, levantaram e tentaram nos matar de arrocho. Comemos o pão que o diabo amassou. Chegamos até a revirar os olhos, acredita, Senhor? Desculpe por ter metido o Coisa Ruim na resposta, Senhor. 
Está desculpada, Eva. Você é danada de autêntica. Agora me diga: o pão estava realmente amassado? Outra coisa. A vara que vocês usaram foi esta?, perguntou o juiz, mostrando uma vara em forma de tê. Não um tesinho qualquer. Mas um tê enorme de grandão e grandão de enorme.
Foi, senhor. Foi essa bendita mesmo. Bom, pra ser sincera, o pão não estava amassado não, mas que era dormido, velho, ah, isso era. Senão não estaria tão duro, Senhor.
Fui eu quem deixou o pão naquele estado, Eva, esclareceu o magistrado, desaprovando a gargalhada do risonho auxiliar. 
Muito bem, só me compete agora seguir a orientação do MP e pedir que Pedro queime a vara, disse o juiz, com discreto piscar de olhos para o ajudante.
Não! Por favor, Senhor!
Por favor, não, Senhor!
Sorrindo, o meritíssimo comentou:
Ouçam, D. Eva e Seu Adão. Esse arrocho que vocês levaram pertence ao livre-arbítrio. Utilizem as regras, fujam da hipocrisia, busquem a harmonia e o pratiquem sem parcimônia. Precisam da macieira, seja em forma de haste, seja em forma de folha, a fim de que a estabilidade cósmica permaneça, meus filhos. Porém, como se trata de livre-arbítrio, estará certo quem dela se abstiver. 
Pedro, arquive a Representação do Ministério do Pudor e o mande tratar de reais e despudorados comportamentos. Há muitos por aí.
Está encerrada a audiência. Peço aos litigantes que se cumprimentem. 
Quê?! Levantem-se!
Mandei-os tão somente se cumprimentarem, pessoal.

Dezembro/13
TC




Um conto de Tião Carneiro

domingo, 8 de dezembro de 2013

Conto - Recomendado para Leitores MAIORES DE 18 ANOS



            A NOIVA DO VIZINHO 


André era meu vizinho já há bastante tempo, o apartamento em que morava, pegado ao meu, havia pertencido à sua mãe, uma senhora gorda, de andar lento, que nunca me cumprimentava quando nos encontrávamos, nos corredores ou no elevador. Ela morrera há mais ou menos um ano e, desde então, seu único filho, solteiro, herdeiro universal, mudara-se para lá.
André era uma pessoa cordial, me cumprimentava sempre e era gentil com as pessoas do prédio, muito diferente de sua mãe, o que me fazia sempre pensar: como alguém como ela podia ter criado uma pessoa tão amável, quanto era meu atual vizinho?
Mas, a principal qualidade de meu amigo... não poderia chamá-lo de amigo, o mais correto seria: conhecido, pois como já dissera antes nossa relação não excedia os “bons dias”, “boas tardes” e “boas noites”, ditos à soleira da porta. Mas, voltando ao assunto, a principal qualidade dele era sua noiva: Marlene. Marlene era uma daquelas mulheres de fazer cair o queixo, linda exuberante, dotada de dois olhos verdes de um brilho comparado às esmeraldas, uma pele alva e cabelos negros como a noite, que, em fios retos, adornavam seu rosto e caíam por suas costas quase até a altura da cintura.
Vez por outra eu a via com ele, entrando e saindo do apartamento, sempre numa “estica” de fazer inveja. Foi numa dessas vezes, quando ele voltara a entrar para apanhar algo que esquecera, e a deixara à porta, que ela puxou assunto:
— Quente hoje, não? 
— Sim. — respondi, meio sem jeito, enquanto deixava cair a chave, que tentava enfiar no buraco da fechadura — Quente demais!
André voltou, antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa e, enquanto aguardavam o elevador, eu entrava e pude vê-la, dissimuladamente, dar uma piscadela em minha direção.
Depois daquilo, demorou muito a voltar a vê-la, mas, quando aconteceu, ela sequer me dirigiu o olhar, pelo menos que eu percebesse.
Bom, o tempo passou, sem nenhum acontecimento peculiar, porém, numa noite de chuva, daquelas que alaga a cidade, causando confusão no tráfego e deixando muitos desabrigados; eu estava sentado em minha sala, lendo um livro, enquanto os relâmpagos iluminavam vez por outra a noite negra, quando o som estridente da campainha soou repetidas vezes, antes que eu alcançasse a porta. Ao abri-la, surpresa minha ao me deparar com Marlene, molhada dos pés à cabeça. Estranhei mais porque, justo naquela semana, dias antes, André também batera à minha porta, pedindo gentilmente, que desse uma olhada em qualquer coisa estranha, referente ao seu apartamento, pois estaria fora, viajando por alguns dias.
Bem, o que importava era que ela estava ali, na minha frente, molhada e pingando em meu capacho de boas vindas. 
— Posso entrar? — indagou ela, tremendo de frio.
— Claro. — concordei, saindo da frente da porta, dando-lhe passagem - Desculpe.
Marlene entrou, dando uma olhada ao redor, reparando em meu apartamento, bagunçado como o de qualquer solteiro, que não esperava por ninguém; depois parou, no meio da sala.
— Desculpe, mas o André me havia dito que estaria voltando hoje. Vim vê-lo, bati na porta até agora e nada... Como estou com muito frio e a rua está praticamente alagada, dificultando meu retorno, resolvi bater.
— Claro... Claro! — disse eu, enquanto ia até o banheiro, apanhar uma toalha seca para ela se enxugar.
Voltei rapidamente, trazendo uma toalha limpa, que apanhara no armário do banheiro, enquanto ela continuava a tremer. Entreguei-lhe e ela começou a se enxugar, principiando pelos longos cabelos negros, depois pelos braços, enquanto retirava a jaqueta jeans que, ensopada me entregou.
— Você pode segurar pra mim? — indagou com um tom gentil, porém com uma ponta de malícia no sorriso.
— Claro. — parecia que essa era a única coisa que conseguia dizer diante daquele monumento, que a camiseta branca, de algodão, molhada até a alma, se revelava.
Apanhei a jaqueta e fui até a pequena área de serviço, onde pendurei-a, enquanto lá fora, através das amplas janelas envidraçadas, podia ver a chuva torrencial que se abatia sobre a cidade maravilhosa.
Quando voltei à sala, ela havia tirado os sapatos, colocando-os ao lado da porta do banheiro, e sobre ele as meias brancas, que tirara dos pés, bem tratados e de unhas pintadas, porém enrugados devido à água que entrara nos sapatos.
— Será que eu podia tomar um banho? — perguntou ela, olhando para o interior do banheiro, onde um box translúcido servia de fronteira com o interior da área de banho — Quem sabe assim ajuda a passar esse frio.
— Claro... Pode sim. — concordei, conseguindo sair de minha gagueira mental — Há sabonete e shampoo, não sei se do seu agrado, mas...
— Serve. — concordou ela, entrando no banheiro, enquanto eu, educadamente, porém morrendo de curiosidade, fechava a porta.
Lá de fora, sentado na sala, escutava o barulho do chuveiro e imaginava a água quente caindo naquele corpo macio e rolando sobre aquelas curvas exuberantes; enquanto tentava me distrair, voltando à leitura.
A tortura durou longos minutos e logo a porta abriu-se, deixando sair o vapor, que tomara conta do banheiro, invadindo o corredor... Em seguida ela saiu, enrolada na tolha, que lhe cobria o corpo desde acima dos seios indo até a altura das coxas, bem próximo à virilha. Sem nada dizer, seguiu para o meu quarto, enquanto eu fingia não ver nada. Ela entrou e nem fechou a porta; saiu, alguns minutos depois, usando uma camisa minha, de cor amarela, comprida, que chegava até a altura de suas coxas. Imaginei o que estaria usando por baixo.
Ela aproximou-se e sentou no sofá, à minha frente, arrumando a camisa para proteger-lhe as partes íntimas, enquanto cruzava as pernas, acomodando-se.
— Agora está melhor. — disse ela, indicando a camisa que usava — Tomei a liberdade...
— Sem problema. — disse eu, baixando o livro, porém não conseguindo desviar os olhos dela. Estava linda e suas formas excitavam minha imaginação.
— O que está lendo? — indagou ela, erguendo-se e vindo para o meu lado; passou, e agachou-se, atrás do braço do sofá, onde eu estava com a cabeça recostada e seu rosto quase tocou o meu — Algo interessante?
— Não. — disse, sentindo o perfume gostoso do sabonete em seu corpo. Parecia que no meu não fazia o mesmo efeito — Qualquer coisa para passar o tempo.
Sentei-me, afastando meu rosto do dela, ela, porém, insistiu, insinuando-se por sobre o braço do sofá.
— Há modos melhores de “passar o tempo”! Você não me disse seu nome, ainda. — brincou ela, abrindo aquele sorriso malicioso.
— Márcio... Meu nome é Márcio. — disse, voltando meu rosto para o dela, enquanto pensava: por que resistir? — E o seu? — indaguei, fingindo não saber.
— Marlene. — ela passou o braço por sobre meu ombro, retirando o livro de minhas mãos, enquanto tocava o lóbulo de minha orelha com seus lábios.
Virei-me e nossas bocas encontraram-se, unindo-se num beijo quente e molhado; aquela boca carnuda, porém pequena era deliciosamente doce. Logo caíamos do sofá, rolando no chão, enquanto a camisa dela subia, revelando suas intimidades. 
Com sofreguidão ela começou a tirar minha camisa, enquanto eu puxava a blusa dela, arrebentando seus botões e liberando seus seios, altivos e ristes como o cume de uma montanha, que rosados pareciam estourar por entre os botões.
Minhas mãos começaram a percorrer aquele corpo nu, lançado sobre meu carpete, detendo-se, inicialmente, nos formosos seios, que enchiam minhas mãos, de forma maravilhosa e quente; depois, desceram, percorrendo suas curvas, até atingirem sua intimidade, que parecia estar febril.
Logo ela ergueu-se, estendendo-me sua mão e melhor pude constatar suas formas e a cintura delicada que desembocava naqueles quadris arredondados e belos. Suas pernas compridas e bem torneadas estavam bronzeadas, talvez do sol da praia, contrastando com o rosto alvo, talvez protegido por protetor-solar.
Segurei sua mão e ela conduziu-me para o quarto. Lá terminei de despir-me e deitei sobre ela, que se estendera sobre minha cama, cobrindo-se com aqueles cabelos negros e longos, que úmidos aderiam à nossa pele.
Foi uma noite incrível, de sexo e desejos desenfreados. Por diversas vezes paramos e recomeçamos, em sessões quase que ininterruptas, que levavam-nos à loucura, realizando fantasias e colhendo desejos, além de um frenesi, que eu jamais julgara um dia conseguir atingir com alguém, e que perdurou até o dia amanhecer com o sol, que surgia para limpar o dia e as ruas, cheias de água, lixo e entulho, arrastado pela força das águas que formara um rio, levando tudo em sua correnteza.
Quando por fim adormecemos, estávamos exaustos e suados, enquanto o sol invadia o quarto, iluminando nossos corpos que brilhavam sob seus raios.
Ao acordar, encontrei Marlene já se vestindo. Suas roupas talvez já tivessem secado e, mesmo que úmidas ela as vestia assim mesmo. Fiquei observando-a, enquanto apanhava-as, hora aqui, hora por ali e só quando terminou, ousei interrompê-la.
— Bom dia! — disse, esboçando um sorriso.
— O mesmo. — respondeu, procurando as meias, para calçar os sapatos.
— Já vai? — levantei-me, enrolado nos lençóis e aproximei-me dela.
— Já! — ela sorriu, olhando-me nos olhos enquanto apalpava os sapatos, verificando que continuavam molhados — Espero que tenha gostado. Mas, acertemos uma coisa: Isso nunca aconteceu!
— Como? — fiquei surpreso, aquelas palavras me pegaram tão desprevenido que deixei o lençol cair.
— Isso mesmo! Confesso que já fazia um tempo que tinha um tesão por você. Mas, agora já demos um fim nele, caso encerrado! — ela sorriu e segurando os sapatos, ainda molhados e as meias, numa das mãos, com a outra mandou-me um beijo e seguiu para a porta, onde parou, antes de abri-la. — André deve voltar talvez amanhã, ou depois; ele é super ciumento e estamos de casamento marcado. Acho melhor guardar nosso segredo... Quem sabe, ainda podemos ter um “repeteco”...
Ela saiu, deixando-me pasmo, sem saber o que fazer ou o que pensar.
Por várias noites passei recordando aqueles momentos sem conseguir pregar o olho, porém, um belo dia, ao sair de casa para ir ao jornaleiro, deparei-me com André e Marlene, chegando. Ele abria a porta, com um largo sorriso nos lábios, enquanto ela adulava-o, de maneira carinhosa e gentil. Coitado, não imaginava a garota com quem ia se casar.
Fiquei ali parado, após ele me cumprimentar e, assim que ele entrou na frente, ela voltou seu olhar para mim e com um sorriso dissimulado deu uma longa piscadela.
Os dois entraram, deixando-me ali, pasmo, sem ação, mas logo me recompus e, caminhando até o elevador sorri, afinal de contas, pelo jeito, logo Marlene seria minha nova vizinha.


domingo, 1 de dezembro de 2013

O POÇO DOS DESEJOS: A ORIGEM



Rio das águas uma cidadezinha no sul de Minas. Carrega uma lenda de há muito tempo atrás. Contam que na parte verde da cidade existe um poço dos desejos. O qual realizará os desejos de quem dentro dele entrar e deixar um pertence de valor pessoal e material.
Antigamente havia muitas suspeitas de bruxaria, até a condenação, as mulheres acusadas de feitiçaria eram colocadas em um poço, feito de pedras. Acreditavam que assim como o fogo, o poço era um ritual de purificação.
O poço úmido e frio era aquecido, quando nele eram derramados álcool e fogo. Para que queimasse as bruxas até a morte.
Esse poço era vigiado por um único homem, Cristovam. Um homem de meia idade, aparência desagradável, manco de uma das pernas e devido a isso sentia dores diárias. Um homem sem recursos financeiros que aceitara aquele emprego como única forma de sobrevivência.
Em uma de muitas noites, Cristovam desceu ao poço para levar a refeição, as mulheres, ali acorrentadas.
Delvine, uma jovem mulher de cabelos negros e crespos se aproximará dele para tentar ver sua face. Ele a afastou Chutando-a com a perna boa.

_Meu carrasco eis um monstro _sorria ao dizer, acorrentada, caída ao chão sobre a pouca luz da lamparina que ele carregara.

Cristovam afastava a luz de sua face, tentando esconde-se dos olhares._Cala-te maldita bruxa _ soou abafado. 
Delvine se erguera, e gritara a ele: _posso realizar seus desejos, só basta dizer-me o que quereres, diga homem. Posso lhe trazer o amor que tanto sonha.

_Não me dirija à palavra, maldita bruxa, fique bem longe com suas feitiçarias. _Disse e subiu. 

Ao longo das noites e dias, Delvine sempre o atormentara com a mesma ideia. Muitas das vezes do alto do poço, Cristovam podia ouvir sua voz, dizendo: _realizo todos os seus desejos... 
Seus dias transformaram-se em um inferno, afinal, a ideia o perseguia dia e noite. Ter o que quisesse. Fascinaria qualquer um.
Cristovam era apaixonado por Suzane. Uma jovem moça, de boa aparência, filha de um comerciante. Eles nunca estiveram juntos, pois ele evitava o contato com as pessoas. Morava afastado da cidade. E evitava ir ao centro fazer compras de mantimentos, costumava pagar um garoto qualquer para fazer isso. Odiara sua aparência. Nunca se via no espelho e nem refletia sua imagem na água. Deixara a barba crescer para que escondesse parte de seu rosto, usara sempre um chapéu para se camuflar. Mas seu amor por Suzane era verdadeiro, mas nunca poderia tê-la, pois não tinha nada a oferecê-la.
Num certo dia de manhã, ao levar a refeição às três bruxas, Novamente fora atormentado por elas que insistiam que se ele tivesse uma feição melhor, sua vida seria muito feliz. 
Ele também achava que se pudesse ter uma feição melhor, poderia conquistar a mulher de seus sonhos, e então, ser feliz. Diante desta certeza, não pode mais lutar contra as investidas das bruxas, e cedera. 
Revelou seus desejos; de ser um homem de aparência agradável, sadia, e ter uma boa condição financeira.
A bruxa abriu uma exceção, dizendo que realizaria três desejos, em troca de um favor. Que na noite seguinte, ele esquecesse o poço aberto, e deixasse as chaves das correntes ao alcance de suas mãos. Ela barganhou, e ele aceitou. E havia mais uma coisa. Para que o desejo pudesse ser realizado, Cristovam precisava dar as bruxas algo de valor sentimental e material ao mesmo tempo. Ele pensou, e pensou. Olhou para mão esquerda e lembrou que a única coisa de valor que tinha na vida era o anel de ouro do casamento de sua mãe. Guardara para dar um dia, talvez, a mulher amada. Retirou o anel do bolso da camisa e entregou a bruxa, Delvine.
Quando chegou ao alto do poço, já pode perceber que não sentia qualquer tipo de dor. Fora em direção ao rio e fizera a barba ali mesmo, e assim se revelou um homem bem afeiçoado e interessante. Pulava como uma criança ao perceber que não arrastava mais a perna. Pisou em algo duro. E abaixou-se para alcançar. Era uma pedra rara e preciosa. A qual lhe renderia uma boa quantia em dinheiro. Tudo que sempre quis acontecera de forma rápida e precisa.
Na noite seguinte, Cristovam fez o combinado, lançou as chaves aos pés das bruxas e partiu deixando o poço aberto. 
Mais em seu íntimo sabia que não podia deixar as bruxas a solta. Sabendo das acusações de mortes que carregavam. Aquelas eram as piores bruxas que já passaram pelo poço. Já tinha o que sempre quis a vida toda, e para sociedade era melhor as bruxas mortas.
Em uma emboscada avisada pelo próprio Cristovam. Alguns homens guardiões da lei da cidade alcançaram as bruxas em sua fuga. Houve muita resistência o que acabou tornando o ato mais difícil e cruel. 
“Rege a lenda que para uma bruxa não voltar à vida necessita ser queimada”. 
Mas não satisfeitos aqueles homens as esquartejaram vivas e as queimaram, para certifica-se de suas mortes. Somente Delvine fora levada de volta ao poço para ser queimada em praça pública. Para servir de exemplo. Mas diante das maldições lançadas, os homens decidiram acabar com aquilo e queimá-la dentro do poço.
Antes de ser jogada novamente ao poço, Delvine olhou Cristovam nos olhos e o segredou: _Maldito traidor, cuidado com aquilo que você deseja. E mesmo já dentro do poço, suas palavras se repetiam com fúria.
A bruxa fora queimada. E uma forte ventania acompanhada de ruídos estridentes, afastara os homens ali presentes.
Quando tudo estava mais calmo, esses homens tentaram voltar ao poço, mas não mais o encontraram. Parecia ter sido engolido pela terra. 
Livre das bruxas, Cristovam fora atrás de conquistar seu grande amor. Comprou uma bela casa, uma carruagem, entrou como sócio nos negócios do pai de Suzane.
Não fora difícil conquistá-la, um homem jovem ainda, bem afeiçoado, com recursos financeiros, galanteado e apaixonado. 
Em um tempo curto namoraram, noivaram e casaram.
Vivera em plena felicidade por um longo tempo até à tarde daquele fatídico dia, em que Suzane junto dos pais sairá para um passeio com a carruagem nova do marido. Ele que não os acompanhou, pois tinha que cuidar dos negócios. 
Uma cobra de três cabeças atravessara a estrada, fazendo os cavalos se assustarem e perderem a direção. A carruagem rolou barranco abaixo, matando os pais de Suzane. Mas Suzane sobreviveu, mas nunca mais poderia dar filhos a Cristovam. O acidente deixara sequelas graves, na pobre jovem. Uma lesão no quadril a qual a fazia sentir muita dor, e com isso perdera a agilidade de seus movimentos, tendo que arrastar uma das pernas para se locomover. O rosto ficará deformado com as escoriações do acidente. Nem de longe, lembrara a linda jovem que fora um dia.
Cristovam gastava tudo que tinha tentando recuperar os movimentos perfeitos de Suzane, e melhorar sua aparência, assustadora. Mas nem todo dinheiro que ganhava era o suficiente para livrá-lo de tudo aquilo que ele mais detestou. 
A mulher que amava, refletia nele, tudo que ele queria esquecer que foi um dia, um mostro. 
O tempo passava e a cada dia Cristovam ficava mais rico, pois o que fazia era trabalhar. O tempo todo sem parar. Era uma fuga, pois não desejava mais voltar para casa e ouvir os gemidos de dor de sua esposa. Olhá-la se tornara um martírio.
Aos poucos percebera que de nada servira seu desejo, pois agora tinha boa aparência, saúde e dinheiro, tudo que sempre quis para conquistar o amor de Suzane, e sentir-se feliz. Mas ao contrário nunca havia se sentido tão infeliz na vida. 
Estava preso a uma mulher não fértil, doente e monstruosa. E a culpa o consumindo dia e noite. Pois sabia que aquilo era um castigo das bruxas a quem o traiu. 

Todas as noites a frase da maldita bruxa ecoava em suas lembranças:

__Maldito traidor, cuidado com aquilo que você deseja.

Dizem até hoje que se o poço for encontrado, o espírito da bruxa Delvine que lá habita, realiza o seu desejo em troca de algo de valor.

Mas você sabe o que realmente quer? 
Cuidado, seu presente não representa seu futuro.
E nunca confie nas palavras de uma bruxa.
Pois nem sempre ter aquilo que deseja, pode te fazer uma pessoa feliz.


Cuidado com aquilo que você deseja, pois poderá se realizar!


FIM